A educação que nasce da comunidade e transforma vidas 
No município do Cazenga na Província de Luanda uma inquietação transformou-se em acção. O que começou como uma simples pergunta- “quantas crianças da nossa comunidade estão fora do ensino escolar?” – tornou-se um movimento comunitário que hoje impacta dezenas de famílias.
Entre risos, leituras em alto tom e o som do lápis sobre o caderno, nasceu o projecto comunitário Aprendizes do bem. Mais do que uma escola, tornou-se um espaço de esperança, crescimento e oportunidade.
O início: debaixo de uma árvore de goiaba
Criado por jovens do município do Cazenga, a Escola Comparticipada – CZG- 104 Aprendizes do Bem –AB, teve início de forma simbólica e simples: debaixo de uma goiabeira, no quintal de um dos membros fundadores, Fernando Adão.
O projecto começou com 12 crianças e era tido como a
Explicação Aprendizes do Bem. No entanto, num período de dois anos o número subiu para 30 crianças. Este crescimento em pouco tempo revelou uma necessidade urgente na comunidade.
Com o aumento da procura, foi alugada uma casa de um quarto e sala, posteriormente o espaço foi dividido, transformado em três salas de aulas onde permaneceram até 2016. O projecto expandiu a sua actuação para além das crianças, passou a oferecer alfabetização para adultos. As aulas decorriam das 7h às 8h da manhã e também no período pós-laboral. Muito dos adultos são pais das crianças que frequentam a escola.
Missão e compromisso social
A missão principal é educação e saúde. Mais do que ensinar a ler e escrever, o projecto procura promover dignidade, inclusão e melhoria das condições de vida da comunidade.
Conhecendo a realidade dos alunos
Em 2023 foi realizada um inquérito para compreender melhor a realidade das crianças e adolescentes daquela comunidade. Os dados revelaram que a maioria vivia em condições precárias e fora da família nuclear, residindo com tios, tias e avós.
Foi também identificado que muitas crianças e até os seus pais não possuem registo de identificação, o que agrava a vulnerabilidade social.
Mesmo após deixarem a escola, algumas crianças continuam a fazer visitas periódicas e participam em actividades promovidas pela escola, demonstrando o vínculo criado ao longo do percurso formativo.
Fundadores
O projecto foi desenvolvido por cinco jovens do município do Cazenga que se conheceram através do projecto Fazer o bem faz bem, são:
- Fernando Adão,
- Francisco Van Dúnem,
- Osmar José
- Rosimar Tomás
- Pedro Miguel
Jovens que decidiram transformar preocupação em acção concreta.
Patrocinadores e apoiantes
Ao longo do percurso, o projecto contou com apoios individuais e colectivos fundamentais para a sua continuidade.
Entre os apoiantes singulares estão: Edson Sombreio, Isiani Fidalgo, José Viega e Kitengo Cunga.
Entre as entidades colectivas: Banco Económico, Banco BIC, NCR, Suave e Stanard Bank.
A primeira doação realizada para a escola foram carteiras oferecidas por Kitengo Cunga. Um marco simbólico, pois impulsionou no crescimento da escola.
Estrutura humana
A escola conta actualmente com 11 professores voluntários, dois dos quais são membros fundadores do projecto. Os restantes integram a equipa como voluntários, movidos pelo compromisso com a educação comunitária.
Necessidades e desafios actuais
Apesar do impacto e do crescimento ao longo dos anos, actualmente o projecto enfrenta desafios estruturais significativos.
Existe uma obra parada há mais de um ano por falta de financiamento, razão pela qual a escola precisa de doações urgentes para finalizar à construção da outra infraestrutura, sendo uma condição essencial para que seja possível o avanço do processo de legalização da instituição.
Além disso, é urgente a melhoria do saneamento básico, de modos a garantir o mínimo necessário para o funcionamento do espaço escolar, nomeadamente acesso regular à energia e à água, preservação da estrutura escolar.
O reforço do apoio financeiro permitirá não apenas concluir a construção, mas assegurar melhores condições para os alunos e professores.
O impacto nas vozes dos aprendizes
Os resultados do trabalho desenvolvido reflectem-se nas palavras dos próprios alunos:
Domingos Diogo (18 anos)
“entrei no Aprendizes do Bem, com 10 anos de idade, saí aos 16 anos. Aprendi muita coisa e foi bom, tivemos muitas saídas, gostei dos professores e da escola. Atcualmente estou na 10 classe, sou muito grato por tudo que aprendi.”
Francisco Cafumba (16 anos)
“Comecei no Aprendizes do Bem quando tinha 7 anos de idade fazendo a 2º- classe e saí aos 12 anos com a 6º- classe finalizada. Se pudesse voltar no tempo, voltaria no aprendizes do bem, gostei muito do tempo que estive lá, faço visitas uma vez a outra. O meu irmão também estuda lá e entrou com a mesma que idade que eu e já está a terminar, chama-se João Cafumba.”
Mais do que um projecto a Escola Comparticipada – CZG 104 Aprendizes do Bem- AB representa a força da iniciativa comunitária quando aliada à persistência e a solidariedade.
O que começou debaixo de uma árvore transformou-se numa estrutura educativa de impacto real, um exemplo de que os heróis da comunidade nem sempre usam capas, mas carregam livros, quadros e a vontade de ensinar.
Ficha técnica
Coordenação: kitengo Cunga
Reportagem: Aliety Gomes
Fotografia: Carlos Cândido