Comunidade do buraco: quando ajudar é um acto de amor
Na Comunidade do Buraco, localizada no município de Talatona em Luanda, a palavra solidariedade ganha um significado profundo.

Num espaço marcado por famílias desestruturadas, baixo nível de escolaridade e dificuldades sociais, surge a figura de Ana Costa de Fátima Setende, carinhosamente conhecida como Tia Ana, uma mulher que transformou a dor colectiva em esperança e acção comunitária.
O lema que orienta o trabalho desenvolvido na comunidae é claro “cada jovem vai ser vigilante um com o outro”, promovendo responsabilidade, união e cuidado mútuo entre crianças, adolescentes e jovens.
Vontade de mudança e criação de oportunidades
Movida pela vontade de gerar mudanças reais, Ana Setende actua há mais de dois anos na Comunidade do Buraco. Em 2024, fundou a Associação Estrelinhas da Faty Setende, com o objectivo de criar novas oportunindades para crianças e jovens que, muitas vezes, crescem em contexto social vulnerável.
A associação acolhe crianças dos 2 aos 5 anos de idade, oferece actividades ligadas ao ensino, educação, artes, música e alfabetização. O projecto estende-se também a algumas mães da comunidade, como forma de combater o desespero que leva muitas mulheres a refugiarem-se no consumo excessivo de bebidas alcoólicas. Com o lema “educar, proteger, transformar, juntos somos mais fortes pelo desenvolvimento da Comunidade do Buraco.”
Fundou também o grupo de futebol masculino com o nome Resilientes Futebol Clube da Comunidade do Buraco, criado com a finalidade de afastar as crianças e jovens da deliquência, do consumo de álcool e de outros comportamentos de risco, o grupo utiliza o futebol como ferramenta de disciplina, inclusão social e formação humana.
O grupo é acompanhado pelo José Jorge, carinhos
amente tratado por Tio Jorge, e é composto por mais de 40 crianças da comunidade. Para além dos treinos regulares, a equipa participou em actividades e jogos amigáveis no Benfica e Coqueiros, representando a Comunidade do Buraco em competições locais.
O futebol tem servido não apenas como prática desportiva, mas também como espaço de educação cívica, respeito, trabalho em equipa e vigilância.
O projecto recebeu apoio do Serviço de Tecnologia de Informação e Comunicação das Finanças Públicas de Angola, que contribuiu com equipamentos e material desportivo, fortalece o desenvolvimento das actividades e incentivam a parmanência dos jovens no desporto comunitário.
Apoio e desafios estruturais
Um dos marcos importantes do projecto foi a cedência de um espaço físico pela Associação Provincial de Moto Cross, que permitiu o desenvolvimento de actividades comunitárias. No entanto, a construção e reestruturação do espaço continuam a enfrentar dificuldades devido à falta de recursos financeiros.

Segundo Ana Setende:
“Precisamos de apoio efectivo. Muitas vezes recebemos visitas rápidas, doações pontuais de sopa ou roupas, mas o que realmente precisamos é da ajuda na construção do nosso espaço físico e de um centro de formação para os jovens”
Vozes da comunidade
Os impactos do trabalho desenvolvido reflectem-se nas palavras das próprias crianças:
Weza Joaquim ( 8 anos ) afirma que participar da comunidade lhe trouxe aprendizagens importantes atraves da música, dos jogos e da educação.
Rosa Calengo ( 13 anos ) destaca a melhoria no comportamento, na comunicação e o contacto com a escrita músical, aprendido com a Tia Ana.
Gelson ( 10 anos ) conta que começou a frequentar a comunidade através do irmão, integra a equipa de futebol e já iniciou um curso de mecânica.
Uma luta que continua
Apesar dos avanços, a Comunidade do Buraco continua a enfrentar sérios desafios, como a falta de seneamento básico, acesso à água potável e casas de banho em condições dignas.
Ana Setende deixa um apelo sincero:
“Muitas pessoas querem aparecer, mas poucas conhecem verdadeiramente a nossa realidade. O que precisamos é de compromisso e não apenas de promessas.”
Entre dificuldades e conquistas, a Comunidade do Buraco segue firme, prova que ajudar é, acima de tudo um verdadeiro acto de amor.
Ficha técnica
Coordenador: Kitengo Cunga
Reportagem: Aliety Gomes
Fotográfia: Carlos Cândido